domingo, 19 de novembro de 2017

POSSIDÔNIO CALAÇA, POETA AGUABRANQUENSE

Possidônio Calaça_foto_O Operário_Montes
Claros 31.01.1933.

Por Etevaldo Amorim


POSSIDÔNIO JOSÉ CALAÇA DO ESPÍRITO SANTO nasceu em Água Branca, Estado de Alagoas, a 17 de maio de 1877. Era filho do Capitão Januário Gomes do Espírito Santo e de D. Antônia Gomes Calaça[i]. Seus avós paternos eram Manoel José Gomes do Espírito Santo e Josepha Gomes de Sá; e, maternos, o Professor Manoel José Gomes Calaça Junior e Maria Alves Calaça.

Tinha como irmãos: Viridiana Calaça do Espírito Santo; Maria Calaça de Figueiredo, esposa do Cel. José Amâncio de Figueiredo; Antônio Calaça e José Calaça do Espírito Santo, este último cirurgião-dentista radicado em Januária.
Bacharelou-se em Ciências e Letras no Ginásio de Maceió.  Já em 1894, prestava os Exames de Preparatórios no Ginásio Nacional e na Escola Politécnica, no Rio de Janeiro, chegando a cursar o primeiro Ano da Faculdade de Medicina e, concomitantemente, o primeiro ano da Escola Politécnica.
Em 1897, passou a residir em Januária, Minas Gerais com a família, onde seu pai foi Coletor de Rendas. Ali, foi professor na Escola Normal Livre e exerceu também o jornalismo, tendo sido Gerente do Jornal A LUZ, que circulou naquela cidade mineira por volta de 1903; e foi Presidente do Diretório do Grêmio Literário Januarense.
Passou um tempo em Belo Horizonte como funcionário dos Correios e professor particular, como também o foi em Pirapora, por volta de 1916.
Como tantos outros poetas e boêmios daquele tempo, Possidônio morreu cedo, aos 55 anos, em Januária, Minas Gerais, a 20 de janeiro de 1932.
O Dr. Edmar Magalhães[ii], Promotor Público januarense que, quando criança, conheceu o poeta no ocaso da vida, o descreve como “todo curvo, resguardado com panos ao pescoço, colete, paletó de pachá preto, calças listradas e estreitas caindo sobre pés grossos, inchados, calçados com mais de uma meia, e de chinelo de trança de calcanhar alto.” E prossegue, reproduzindo a visão que tivera na venda do Sr. Alfredo Carneiro, “Trazia um chapéu largo à cabeça, e os seus bolsos eram volumosos, deixando aparecer a ponta de um lenço grande, cheio de quadrados vermelhos...
Já Antônio Vieira Barbosa, na Gazeta de Paraopebas (25/02/1940) reflete sobre suas lembranças de Possidônio, num encontro, em 1921, em casa comercia do professor Benedito Casqueiro. “Boêmio inveterado, desperdiçou em libações e noitadas com perda de sono os melhores anos da vida, quando, em plena madureza intelectual, pudera produzir com regularidade, dando-nos, ainda, as mais estremes cintilações do seu estro magnífico.”
                Possidônio, desprendido e desregrado, sem qualquer compromisso com o equilíbrio financeiro de sua vida, morreu pobre. Tanto que, tendo recebido, por herança, a vultosa quantia de Dez Contos de Réis, sem qualquer plano de investimento,  abandonou o quarto de solteirão que ocupava em casa de um parente e mudou-se para o melhor hotel da cidade. Quando o dinheiro acabou, e com a maior naturalidade, retornou à antiga moradia.

Eis alguns dos seus poemas:

SE EU AMO!! ..

Perguntaram-me um dia se eu amava,
Esperando a resposta com ardor...
E neste mesmo tempo eu meditava:
-Há quem possa existir sem ter amor?

Não amar, nesta vida, é impossível;
Impossível os passos dirigir...
Não pode homem nenhum, mesmo insensível,
Nem há de a natureza permitir.

Viver sem amor?! Ah! Nem sonhando;
Motivo para o amor não vai faltar


A SUBLIME EPOPÉIA

Em êxtase, desfolho o livro do infinito,
Em face ao mundo, ao tempo... e a tudo que extasia.
Reina em tudo o que vejo esplêndida magia
E imerso no cismar, atônito, me agito!

Contemplo a natureza, e a contemplar medito,
Por ver na criação mirífica harmonia!
Parece-me que Deus em tudo se anuncia,
Que tudo em Deus aclama altíssimo e bendito1

Do meu compreender, estreito ou limitado,
Eu busco perscrutar na atônita estreiteza,
Este grande universo, imenso, mal sondado....

Então, do peito meu, por ver tanta grandeza,
Parte, de íntima voz, do fundo d’alma o brado
Que diz: - Poeta é Deus – poema a natureza”

Mariana, 1906.

Publicado em O Malho, Ano V, nº 210,  Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1906, p. 28.
_______________

MEU BERÇO

Sou filho de Alagoas. Água Branca
é meu berço natal, a vilazinha,
                a terra em que nasci.
O horizonte, a meus olhos tira, arranca
o céu do berço meu, da pátria minha,
                Onde infante vivi.
Daqui não vejo o céu de minha terra,
essas matas virentes, o meu vale,
                O meu nativo lar.
O belo céu azul que a Pátria encerra,
Mas, que em mim a saudade sempre fale,
                Fazendo-me lembrar.
Sou filho de Alagoas, bela plaga,
Que São Francisco beija quanto passa
                No leito colossal,
O mesmo S. Francisco que hoje alaga
As terras que em limites ultrapassa
                No solo marginal.
É tão belo o torrão alagoano!
Que formosas manhãs! Um céu sorrindo
                Nos róseos arrebóis!
Inda mais... Deodoro e Floriano
Dizem, na voz da história ressurgindo:
                “És um berço de heróis!”

Publicada em Antologia Remissiva, de Prof. Napoleão Mendes de Almeida. Editora Annablume, São Paulo, 2003.





[i] Em registro de nascimento de uma filha natimorta Erotides Calaça do Espírito Santo, em 3 de maio de 1889 diz que o pai é o Capitão Januário Gomes do Espírito Santo (natural de Tacaratú-PE) e a mãe era Edeltrudes Calaça do Espírito Santo.
[ii] Vida Doméstica, RJ, novembro de 1944, p. 125.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia