sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O AVIÃO QUE CAIU EM CAMPINAS


Por Etevaldo Amorim

Muitas lembranças eu ainda guardo da infância em Campinas. Entre elas um acontecimento trágico, de cujas proporções só agora tomo conhecimento.
Era noite alta, já madrugada. Meu tio nos acordou na casinha dos fundos onde morávamos e nos dirigimos à porta de sua casa, na Rua Amparo, no bairro Novo Campos Elíseos. Lá estava um carro com alguns homens, que arregimentavam voluntários para controlar um incêndio provocado pela queda de um avião. Favorecidos pelos espaços vazios que ainda havia naquela parte nova do bairro, pudemos avistar o fogaréu nos eucaliptos, a cerca de seis quilômetros de onde estávamos. Meu pai e meu tio foram com eles. Na volta, o relato estarrecedor: em meio ao fogo intenso, lutando com os poucos recursos de que dispunham, ainda se deparavam com corpos carbonizados e mutilados em meio aos destroços fumegantes do aparelho.
Agora, vasculhando os jornais da época, no precioso portal da Biblioteca Nacional, encontro detalhes daquele episódio que marcou a minha memória de criança. Na madrugada do dia 23 de novembro de 1961, o avião Arco-Iris, um COMET 4¹ prefixo LV-AHR, da Aerolineas Argentinas, procedente de Buenos Aires, decolara do Aeroporto Viracopos às 2:32 h com destino a Nova York, com escala em Trinidad. Depois de uma inexplicável demora de 20 minutos na cabeceira da pista nº 32, o avião decolou depois de o comandante dar o sinal convencional de que estava tudo em ordem a bordo. Um minuto e meio depois caiu na região denominada Sítio Lagoa, bairro Friburgo, três quilômetros do Aeroporto, devastando uma plantação de eucalipto de propriedade do Sr. Werner Schaefer, abrindo uma clareira de mais de trezentos metros e explodindo ao encontrar um aclive do terreno. O radiotelegrafista de bordo não teve tempo de fazer qualquer comunicação. A última foi momentos antes da decolagem.
Segundo informou depois o comando da IV Zona Aérea, as condições atmosféricas naquela noite eram boas, com teto de 400 metros e visibilidade de 6.000 metros. O plano de voo apresentado pelo comandante previa uma viagem de 5 horas e 16 minutos até a próxima parada: Trinidad.
O avião partira do aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, às 23 horas do dia 22, sob o comando de Roberto Môsca e tendo a seu lado o Co-piloto Raul Quesada. Ao chegar a Viracopos, a 1:15 h, cinco passageiros desembarcaram: Alan Skellenger, Maria Mila Sole, Manuel Bonino, Maria J. Z. de Bonino e Victor Ventura. O Sr. J. W. Glenz deixou de embarcar, escapando do sinistro.
Estavam a bordo 52 pessoas², sendo 40 passageiros e 12 tripulantes. Ambulâncias, viaturas policiais de três guarnições de bombeiros de Campinas, inclusive um helicóptero da FAB, acorreram ao local e, auxiliados por voluntários, conseguiram a muito custo debelar o incêndio, passando à fase de identificação dos corpos. Reconheceram imediatamente o comandante Roberto Môsca e o Co-piloto H. Loubert e apenas um passageiro, dadas as condições em que ficaram os demais.
         Bertoldo Antônio, morador há 200 metros do local da queda, declarou à reportagem do jornal carioca Última Hora: “Acordei ouvindo violentas explosões e julguei que fosse um tremor de terra. Corri ao local, mas nada pude fazer” Já o sitiante Werner Schaefer, de origem alemã, disse que, ao ouvir as seguidas explosões, supôs tratar-se de alguma revolução. Ainda segundo o Última Hora, sua esposa Olga Jurz declarou: “Julguei que fosse um terremoto. Saí com meu marido e vimos o avião envolto em chamas. Foi horrível”.
          O fotógrafo Neldo Cantanti, que registro o acidente, conta que “Era um amontoado de ferro retorcido e a gente pisava na terra queimada. Ainda chovia muito. Só sobraram a cauda e as turbinas.” Ele ainda lembra que um dos passageiros perdeu o voo devido à demora do taxista que o levava ao aeroporto. Perderia uma reunião muito importante e, por esta razão, ficou muito irritado com o motorista. Minutos depois, sabendo do acidente, agradeceu por salvar-lhe a vida.
                Além dos 52 mortos na queda, a tragédia fez mais uma vítima, a Srª Amália Fêit de Serrano, 69 anos, que faleceu em Córdoba ao saber da morte do filho, o arquiteto Ernesto Guilermo de Serrano.
                Acabou assim o fatídico voo 322.
               Vislumbro agora outra ligação com aquele fato. Meu pai era operário da DUNLOP DO BRASIL, uma fábrica de pneus de origem britânica, que foi depois vendida à PIRELLI. Essa Unidade de Campinas fornecia componentes à BOAC, fabricante do Comet 4. Lembro-me que ganhei um aviãozinho de brinquedo numa das festas de confraternização, uma miniatura do aparelho da BOAC.
                Essas lembranças da infância não se apagam nunca... e já faz 51 anos.
_____________
¹ Fabricado pela Britsh Overseas Airways, também conhecida por sua sigla, BOAC. Essa empresa aérea do Reino Unido surgiu como fusão entre a Britshi Airways Ltd. e a Imperial Airways no ano de 1939. Em 1974, a BOAC fundiu-se com a Britsh European Airways com ato do parlamento britânico de 1971. Em 1975, foi a primeira companhia aérea a utilizar um avião a jato para transporte de passageiros, com o De Havilland Comet.

² Procedentes de Buenos Aires: Horácio A. Esteverena, capitão da Marinha Argentina e sua esposa Marta Hortensia Martoreli; Eduardo Leonidas Vago, Gerente-Geral das Companhias Marítimas Argentinas; Carlos Francisco Bertoa de Liano, oficial do Exército argentino; Colette Lousberg de Arlia, belga de 31 anos; Bernardo Fridman, negociante argentino de 57 anos; Ramon Garcia, argentino 56 anos; Marta L. Smart, estudante argentina de 17 anos, filha do gerente-geral da Aerolineas Argentinas nos Estados Unidos, Albert Smart; Mário Antônio Couto, negociante argentino 40 anos; José Antônio Reyes, eletrotécnico argentino 42 anos; Gilbert Jean Luy, norte americano 47 anos e sua esposa Luciana Rosa Larreia de Luy, peruana 31 anos; Oscar Manuel Manna, despachante aduaneiro argentino 26 anos; Salomon Burstzein, argentino naturalizado 56 anos; David Smith, orador luterano argentino de 39 anos; Nicolas Susta, arquiteto argentino de 32 anos; José Antônio Talawe, 22 anos oficial do Exército argentino; Renee Sweig, industrial austríaco 43 anos; Edgar Bercebal, negociante argentino 30 anos; Ernesto Guilhermo Serrano, arquiteto argentino 43 anos; Emílio Giancola, sacerdote argentino naturalizado 31 anos; Maria Gracia Guerrieri de Barreiro, argentina 58 anos; Maria Rosa Guerrieri, argentina 31 anos; Ricardo Jesus Ezcurra, negociante argentino 46 anos; Oscar Reinaldo Buhrer, estudante argentino 10 anos; Amanda Maria Correia de Buhrer, argentina 45 anos; Abraham Wolf Kiszemberg, argentino naturalizado 37 anos; Francisco Colucci, piloto civil argentino 31 anos; Alejandro Martin, piloto civil argentino, 33 anos;Jorge Cesar Rodrigues, piloto civil argentino 36 anos; Francisco Carlos Gabrieli, piloto civil argentino 29 anos, diretor de aeronáutica da Província de Mendonza; Nicolas Rado, industrial argentino 35 anos; Clemente Gomez, argentino 31 anos; William Boryk; Carlos Leonardo Sersosino, argentino 35 anos funcionário da Aerolineas Argentinas, o único que se dirigia a Trinidad; C. Z. Omfz; Stig Forum Smitd, ex-chefe de pilotos em Nova Yorque, que viajava como passageiro. Embarcaram em Campinas: Isidor Hegyr; Erzsebt Biro Hagyi; Magid Raduan. Tripulantes: Roberto Môsca, piloto; Raul Mário Quesada, co-piloto; Maurício Loubet, co-piloto reserva; Boris Juan Marijanac, navegante; Carlos Leiva, mecânico; Juam Leira, engenheiro de vôo; Antônio Sigilli, operador de rádio; Washington Garcia, comissário; Ricardo Henrique Garcia, comissário; Cândida Perez, aeromoça; Lylian Casanovich, aeromoça;Manuel Vallecillos, navegante reserva.





Equipes de resgate em meio aos destroços do avião Foto: Neldo Cantanti.


Destroços do Comet 4. Foto: Neldo Cantanti.


Capa da edição extra do Correio Popular de Campinas, que fez a cobertura do acidente.


Indicação do possível local do acidente, arredores do Cemitério dos Alemães.
Fonte: Google. Edição: Edilberto Princi Portugal.

Comet 4, em 1961, no aeroporto de Orly, França. Foto: Georges Cozzika.


Nas pesquisas para compor este artigo encontrei esta foto no site http://aviation-safety.net/database/operator/airline.php?vai=6813. Como a sua reprodução estava condicionada à autorização do autor, solicitei de imediato. Getilmente, o Sr. Georges Cozzika, um francês de origem grega, físico nuclear aposentado, hoje com 71 anos, permitiu-me utilizá-la para ilustrar este pequeno relato.
Em 1961, câmera na mão, o jovem estudante interessado em aviões frequentava, na companhia de um amigo, o aeroporto de Orly, sul de Paris, quando fez esta foto do avião da Aerolineas Argentinas. Orly foi o principal aeroporto da França até a inauguração do Charles de Gaulle, em Roissy, em 1974. Noutras vezes, iam ao mais antigo, de Le Bourget, norte de Paris, onde Lindberg desembarcou em 1927, na célebre façanha de voar 33 horas e meia desde Nova Yorque. Revelou-me que, até bem pouco tempo, não tinha conhecimento de que aquele belo aparelho havia sido abatido por essa tragédia.

FONTES:

Diário de Notícias, 25/11/1961. Disponível em:
A Noite, 24/11/1961. Disponível em:

Diário da Noite, 24/11/1961. Disponível em:

Diário Carioca, 25/11/1961. Disponível em:

Última Hora, 25/11/1961. Disponível em:

Pró-memória – Campinas.


Portal do Aeroporto Internacional de Viracopos.







9 comentários:

  1. Excelente.
    Muito interessante reler essa memória. Continue o bom trabalho.

    ResponderExcluir
  2. Soy el hijo del navegante Boris Ivan Marijanac. Es la primera vez que puedo encontrar su nombre en la descripción de aquel accidente. Mi madre me decía que ese dia debía de estar de vacaciones pero le pidieron de sustituir un amigo. Nunca pude conocerlo porque cuando murió yo tenia solo 2 años. Que en paz descansen todos. (ajmarijanac@tin.it)

    ResponderExcluir
  3. El comandante de ese avión, Roberto Luis Mosca, era mi tío (hermano de mi madre) y lo recordaré siempre con cariño y admiración.
    Yo tenía 12 años cuando ocurrió la tragedia.
    Muchas gracias, Etevaldo, por tan vívido recuerdo.
    Roberto Solans (editor.espacial@gmail.com)

    ResponderExcluir
  4. Quando eu era criança costumava ir a um local aonde diziam ter caido a aeronave Argentina. Esse local esta preservado até hoje.

    ResponderExcluir
  5. Sempre morei no vida nova bairro vizinho do Friburgo sempre soube q caiu um avião lá mas eh a primeira vez que pesquiso essa história, muito obrigado por relata-la

    ResponderExcluir
  6. Eu conheço o local exato onde caiu o a aeronave

    ResponderExcluir
  7. Essa tragédia me impressionou muito quando eu tinha 11 anos de idade.Nunca a esqueci pois sou muito interessado em aviação.No entanto, conhecia o operador da torre de controle de Viracopos no dia 23/11/61, chamado Geraldo Subtil, já falecido que me contou que o avião praticamente não decolou. Disse-me que os "flaps" da asa não estavam abaixados para o angulo da decolagem. Achava que por isso a aeronave não conseguiu alçar voo. Não me falou sobre a ocorrência de defeito nos motores que a reportagem aponta.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Seu depoimento é muito importante, sobretudo porque, como eu, se lembra do acidente. Pena que não tenha anotado seu nome... Muito obrigado! Espero continuar merecendo a sua leitura.

      Excluir

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia