sábado, 10 de fevereiro de 2018

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OS CARNAVAIS DE PÃO DE AÇÚCAR


       Álvaro Antônio Machado*
Adolescente, eu fazia, no final da década de 1960, a descoberta das belezas das festas da minha Pão de Açúcar e me encantava, particularmente, com os “carnavais” da minha terra. Isso mesmo, “carnavais”, porque no mesmo ano eram duas festas carnavalescas: uma denominada como tal, que acontecia no mesmo momento em todo o País; e outra chamada “micareme”, esta sim, uma entusiasmada festa carnavalesca que, pela animação e pela participação, parecia acontecer só em Pão de Açúcar ou, no mínimo, fazia da “terra de Jaciobá” a capital dessa folia fora de época.
O que me intrigava na micareme era sua proximidade com o carnaval propriamente dito. Quarenta dias depois das brincadeiras, dos batuques e da bebedeira da primeira festa, e a cidade já caía de novo na folia. Sim, porque a micareme começava logo após “romper a aleluia”, às vésperas do Domingo da Ressurreição, e se estendia até a madrugada da quarta-feira seguinte. Com uma agitação, um contentamento, uma presença popular que parecia fazer do carnaval uma mera preparação para a micareme.
É fato, também, que no carnaval havia algo que me indispunha e era motivo de mil recomendações de cuidados pelos meus pais: o entrudo, a brincadeira que dominava a manhã do domingo. Ela se caracterizava por grupos que circulavam pela cidade em busca de jovens ou adultos desavisados ou desprevenidos, para arrastá-los, sobre os ombros e em meio a enorme algazarra, para um banho forçado nas águas do “velho Chico”, jogados n’água da forma como estavam vestidos. 
Afora o entrudo, o carnaval era singelo enquanto a micareme se sobressaía como o grande festejo carnavalesco. Somente muito tempo depois encontrei uma explicação lógica para o estrondoso sucesso da micareme em Pão de Açúcar, que atraía visitantes e foliões de toda a redondeza. É que Pão de Açúcar, tal quais as cidades ribeirinhas do São Francisco, sempre manteve uma tradição de parir músicos de qualidade que, também no carnaval, faziam sucesso dentro e fora do município com suas bandas. Assim, elas eram muito disputadas no período do carnaval para abrilhantar a festança em outras cidades. Dessa forma, a rapaziada de “Seu” Nozinho, Brandão, Bubu, Irmãos Ramos e vários outros, cada qual no seu tempo, geralmente saía de Pão de Açúcar para tocar em outros lugares no carnaval e durante a micareme tocava em casa, abrilhantando a grande folia da terrinha.

Aos poucos, porém, essa tradição perdeu-se no tempo e restou apenas o carnaval propriamente dito, comemorado em Pão de Açúcar com bem menos destaque que antes da importação das bandas de axé e da substituição do frevo e das marchinhas por ritmos modernos descaracterizados.
Outrora era encantador chegar a época carnavalesca e naquela cidade interiorana tão longínqua, como num passe de mágica, surgirem os blocos que me embeveceram a infância e marcaram minha adolescência: Los Panchos, Bola Preta – precursor do Bola Branca e do Bola Vermelha, Os Cangaceiros, Boi Fubá, Os Bárbaros, A Boneca, As Lavandeiras, O Barracão, Dois Unidos, a Chaleirinha de Meirus; e as “escolas de samba” Sambistas de Urumarys e CIT (“Companhia Inimiga do Trabalho”). A ‘Sambistas de Urumarys’, em que eu figurava, literalmente, balançando o ganzá, trazia no nome uma homenagem aos primeiros habitantes da terra, os índios urumarys, de afinada sensibilidade poética e que deram o primeiro nome ao lugar: Jaciobá, que em tupi-guarani significa ‘espelho da lua’.
Grupo de foliões, tendo a frente Zé Negão (pandeiro) e João de
Santa (banjo)

As brincadeiras de rua, com direito a desfile na principal avenida da cidade, a Bráulio Cavalcante, onde o Rei Momo a tudo observava do seu palanque imperial, começavam ao cair da tarde e se estendiam até perto das onze horas da noite. Nesse período, enquanto uma banda tocava no centro da avenida fazendo a grande festa popular, uma tradição era mantida: a ‘visita’ dos blocos a residências previamente avisadas, onde os proprietários recebiam os foliões com bebidas e tira-gostos, uma forma divertida e inteligente de beber e comer sem pagar, melhor que isso, retribuindo a gentileza com a animação carregada pelas marchinhas e frevos cantados pelos blocos.
O Sr. Roberto Alvim no carnaval de 1968.

A cada ano os blocos exibiam fantasias distintas, mas sem perder a originalidade que caracterizava cada um deles, como os chapéus mexicanos de “Los Panchos”. Dentre todos os blocos e dentre todos os foliões, um indivíduo sempre se destacava: Roberto Alvim. De longe, para mim, o mais fidedigno folião da minha terra e da minha época. Ele parecia viver ‘esperando o carnaval chegar’. E quando chegava, carnaval ou micareme, “seu” Roberto encarnava o autêntico folião: galhofeiro, dançarino, divertido, detentor de contagiante alegria e exibindo-se sempre fantasiado com seu martelinho de plástico brandindo nas mãos e nas cabeças dos amigos.   
Grupo de foliões, tendo a frente Zé Negão (pandeiro) e João de
Santa (banjo)

Terminada a maratona de visitas, e já com os integrantes devidamente ‘calibrados’ pelas distintas bebidas ofertadas, era o momento de grande parte dos foliões (ou, pelo menos, os que ainda se punham de pé) brincar o carnaval no Iate Clube Pão de Açúcar, onde uma banda animava as quatro noites de folia.
E os dias de folia voavam, como sói acontecer nos momentos felizes de nossas vidas. O alvorecer da “quarta-feira ingrata” levava a banda que animava o carnaval do Iate Clube a sair tocando além dos muros da agremiação, puxando o último cordão de foliões pela “Rua da Frente”, como se tentassem evitar o acorde final de ‘Vassourinhas’. A despedida era coroada com os foliões menos alquebrados mergulhando nas águas do ‘velho Chico’, como se procurassem uma purificação para voltar à lida do cotidiano e esperar, ansiosos, o futuro carnaval ou a próxima micareme...

Bloco Los Panchos
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Álvaro Antônio Melo Machado, médico formado pela Universidade Federal de Alagoas; Sócio-efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas; membro da Academia Alagoana de Medicina e da Academia de Letras de Pão de Açúcar.

domingo, 21 de janeiro de 2018

ESCOLA DO PROFESSOR HAROLDO SALATIEL CANUTO

DO ALTO PARA BAIXO:
Primeira fila: 1. José Marques de Albuquerque; 2. Hélio Pastor Cruz (padre); 3. Erichson Ávila Almeida (Lito); 4. José Ramos de Souza (músico); 5. Luiz Machado Tavares (Eng. Civil); 6. Otávio Tavares Vieira (Eng. Agrônomo); 7. Virgílio Fonseca Filho (ex-combatente-1945); 8. Érico de Freitas Machado (Eng. Agrônomo); 9. Heitor Ávila Almeida; 10. Dermeval de Campos Lisboa; 11. Não identificado.
Segunda fila: 12. Danúbio Ferreira (barbeiro); 13. José Barbosa de Medeiros; 14. José de Freitas Lima (Oficial aviador reformado); 15. Antônio Maia Lima; 16. Antônio da Silva Maia Filho; 17. Ariston Rego Pinto; 18. Humberto Melo Barbosa; 19. José de Góis Cavalcante; 20. Salvador Mendes Guimarães (herói da 2ª Guerra Mundial).
Terceira fila: 21. Francisco Pastor Cruz; 22. Olavo de Freitas Machado (Eng. Agrônomo); 23. Francisco (filho de Pedro Merêncio); 24. Maria Vieira dos Anjos (filha de Inocêncio Vieira e d Otília dos Anjos); 25. Maria (sobrinha do Prof. Haroldo S. Canuto); 26. Evalda Vieira de Carvalho; 27. Angelita Oliveira; 28. Ivete Gonzaga; 29. Arício Rego Pinto; 30. Gessé de Góis Cavalcante.
Quarta fila: 31. Pedro Soares Vieira (filho de Inocêncio Vieira e d. Otília dos Anjos); 32. Heráclito Ávila Almeida; 33. Jugurta Gonçalves Lima; 34. Gervásio Francisco dos Santos (autor do livro Um Lugar no Passado); 35. Prof. Haroldo Salatiel Canuto (tabelião em Traipu); 36. José Pastor Cruz; 37. Massilon Gonçalves de Andrade; 38. Abel Machado Tavares (Eng. Civil); 39. Petronilo Nery da Fonseca.
A foto acima mostra uma geração de pão-de-açucarenses, na década de 1930, alunos da Escola do Professor Haroldo Salatiel Canuto, que se tornaria depois Tabelião em Traipu.

domingo, 3 de dezembro de 2017

MADRIGALENTE

Franco Jatubá[i]
Que não diriam todas as maldosas
flores, a rir, nas ramas viridentes,
se eu te beijasse a boca? Maldizentes,
talvez dissessem proibidas cousas...

Muito daria que dizer às rosas
e aos lírios, faladores, insolentes...
De nossas duas almas inocentes
fariam duas almas criminosas!

Deixa primeiro que o Sol morra. Apenas
a noite chegue, tatalando as penas
cheias d’orvalho e de melancolia,

nos beijaremos tanto, que dos ninhos
irão fugindo os doidos passarinhos,
cuidando ouvir a música do dia!

Alagoas, 1899.








[i] Pseudônimo de Francisco Remígio de Araujo Jatobá. Algumas referências o tratam como Francisco Remígio de Albuquerque Jatobá, adotando o sobrenome da mãe.
Nasceu em Murici – AL, a 20/01/1872, segundo o ABC DAS ALAGOAS. Entretanto, o jornal Gutenberg, de 2 de abril de 1907, noticiando a sua morte, diz que ele nasceu em Maceió.
Faleceu em Maceió - AL a 31/03/1907.
Poeta, jornalista, funcionário público.  Era filho de José Inácio de Araújo Jatobá (que foi administrador da Cadeia de Maceió) e da “modista” Bárbara Cordeiro de Albuquerque Jatobá. Era tio do também poeta Cypriano Jucá (filho da sua irmã Maria Grabriela e de Romualdo da Silva Jucá).
Iniciou seus estudos em Maceió, mas não chegou a completar os preparatórios. Funcionário da Alfândega de Maceió (1890), escriturário do Tesouro Federal, no Rio de Janeiro, nomeado em 1895 e demitido em 1903. Seus artigos foram reunidos em um volume, após sua morte.
Patrono da cadeira 28 da Academia Alagoana de Letras. No jornalismo, combateu a denominada Oligarquia Maltina.
Obra: O Brasil e o Insulto Argentino, Maceió, Imprensa Oficial/ Liv. Fonseca, 1907, sob o pseudônimo de Sargento Albuquerque (edição confiscada por ordem do Ministro das Relações Exteriores). Segundo Romeu de Avelar, que o incluiu na sua Coletânea de Poetas Alagoanos, o Barão do Rio Branco teria interferido junto ao editor para sustar a publicação.  É ainda de Romeu de Avelar a informação de que teria deixado inúmeros poemas inéditos e uma coletânea de contos orientais. Fundador e redator, em 1892, de O Labor (hebdomadário literário, instrutivo e recreativo dedicado à mocidade alagoana.) e do Correio de Maceió, e colaborador de O Gutenberge do Correio de Alagoas. Jucá Santos afirma que deixou inédito o livro de poesia Vale de Lagrimas, o poemeto O Sapo, o livro Beduínos (contos orientais), Judéia (contos bíblicos) e o drama Ódio de Família, de um prólogo e quatro atos, todos na guarda de sua irmã, os quais foram destruídos após a morte desta.

Fonte principal: ABC DAS ALAGOAS. BARROS, Francisco Reinaldo Amorim de.

domingo, 19 de novembro de 2017

POSSIDÔNIO CALAÇA, POETA AGUABRANQUENSE

Possidônio Calaça_foto_O Operário_Montes
Claros 31.01.1933.

Por Etevaldo Amorim


POSSIDÔNIO JOSÉ CALAÇA DO ESPÍRITO SANTO nasceu em Água Branca, Estado de Alagoas, a 17 de maio de 1877. Era filho do Capitão Januário Gomes do Espírito Santo e de D. Antônia Gomes Calaça[i]. Seus avós paternos eram Manoel José Gomes do Espírito Santo e Josepha Gomes de Sá; e, maternos, o Professor Manoel José Gomes Calaça Junior e Maria Alves Calaça.

Tinha como irmãos: Viridiana Calaça do Espírito Santo; Maria Calaça de Figueiredo, esposa do Cel. José Amâncio de Figueiredo; Antônio Calaça e José Calaça do Espírito Santo, este último cirurgião-dentista radicado em Januária.
Bacharelou-se em Ciências e Letras no Ginásio de Maceió.  Já em 1894, prestava os Exames de Preparatórios no Ginásio Nacional e na Escola Politécnica, no Rio de Janeiro, chegando a cursar o primeiro Ano da Faculdade de Medicina e, concomitantemente, o primeiro ano da Escola Politécnica.
Em 1897, passou a residir em Januária, Minas Gerais com a família, onde seu pai foi Coletor de Rendas. Ali, foi professor na Escola Normal Livre e exerceu também o jornalismo, tendo sido Gerente do Jornal A LUZ, que circulou naquela cidade mineira por volta de 1903; e foi Presidente do Diretório do Grêmio Literário Januarense.
Passou um tempo em Belo Horizonte como funcionário dos Correios e professor particular, como também o foi em Pirapora, por volta de 1916.
Como tantos outros poetas e boêmios daquele tempo, Possidônio morreu cedo, aos 55 anos, em Januária, Minas Gerais, a 20 de janeiro de 1932.
O Dr. Edmar Magalhães[ii], Promotor Público januarense que, quando criança, conheceu o poeta no ocaso da vida, o descreve como “todo curvo, resguardado com panos ao pescoço, colete, paletó de pachá preto, calças listradas e estreitas caindo sobre pés grossos, inchados, calçados com mais de uma meia, e de chinelo de trança de calcanhar alto.” E prossegue, reproduzindo a visão que tivera na venda do Sr. Alfredo Carneiro, “Trazia um chapéu largo à cabeça, e os seus bolsos eram volumosos, deixando aparecer a ponta de um lenço grande, cheio de quadrados vermelhos...
Já Antônio Vieira Barbosa, na Gazeta de Paraopebas (25/02/1940) reflete sobre suas lembranças de Possidônio, num encontro, em 1921, em casa comercia do professor Benedito Casqueiro. “Boêmio inveterado, desperdiçou em libações e noitadas com perda de sono os melhores anos da vida, quando, em plena madureza intelectual, pudera produzir com regularidade, dando-nos, ainda, as mais estremes cintilações do seu estro magnífico.”
                Possidônio, desprendido e desregrado, sem qualquer compromisso com o equilíbrio financeiro de sua vida, morreu pobre. Tanto que, tendo recebido, por herança, a vultosa quantia de Dez Contos de Réis, sem qualquer plano de investimento,  abandonou o quarto de solteirão que ocupava em casa de um parente e mudou-se para o melhor hotel da cidade. Quando o dinheiro acabou, e com a maior naturalidade, retornou à antiga moradia.

Eis alguns dos seus poemas:

SE EU AMO!! ..

Perguntaram-me um dia se eu amava,
Esperando a resposta com ardor...
E neste mesmo tempo eu meditava:
-Há quem possa existir sem ter amor?

Não amar, nesta vida, é impossível;
Impossível os passos dirigir...
Não pode homem nenhum, mesmo insensível,
Nem há de a natureza permitir.

Viver sem amor?! Ah! Nem sonhando;
Motivo para o amor não vai faltar


A SUBLIME EPOPÉIA

Em êxtase, desfolho o livro do infinito,
Em face ao mundo, ao tempo... e a tudo que extasia.
Reina em tudo o que vejo esplêndida magia
E imerso no cismar, atônito, me agito!

Contemplo a natureza, e a contemplar medito,
Por ver na criação mirífica harmonia!
Parece-me que Deus em tudo se anuncia,
Que tudo em Deus aclama altíssimo e bendito1

Do meu compreender, estreito ou limitado,
Eu busco perscrutar na atônita estreiteza,
Este grande universo, imenso, mal sondado....

Então, do peito meu, por ver tanta grandeza,
Parte, de íntima voz, do fundo d’alma o brado
Que diz: - Poeta é Deus – poema a natureza”

Mariana, 1906.

Publicado em O Malho, Ano V, nº 210,  Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1906, p. 28.
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MEU BERÇO

Sou filho de Alagoas. Água Branca
é meu berço natal, a vilazinha,
                a terra em que nasci.
O horizonte, a meus olhos tira, arranca
o céu do berço meu, da pátria minha,
                Onde infante vivi.
Daqui não vejo o céu de minha terra,
essas matas virentes, o meu vale,
                O meu nativo lar.
O belo céu azul que a Pátria encerra,
Mas, que em mim a saudade sempre fale,
                Fazendo-me lembrar.
Sou filho de Alagoas, bela plaga,
Que São Francisco beija quanto passa
                No leito colossal,
O mesmo S. Francisco que hoje alaga
As terras que em limites ultrapassa
                No solo marginal.
É tão belo o torrão alagoano!
Que formosas manhãs! Um céu sorrindo
                Nos róseos arrebóis!
Inda mais... Deodoro e Floriano
Dizem, na voz da história ressurgindo:
                “És um berço de heróis!”

Publicada em Antologia Remissiva, de Prof. Napoleão Mendes de Almeida. Editora Annablume, São Paulo, 2003.





[i] Em registro de nascimento de uma filha natimorta Erotides Calaça do Espírito Santo, em 3 de maio de 1889 diz que o pai é o Capitão Januário Gomes do Espírito Santo (natural de Tacaratú-PE) e a mãe era Edeltrudes Calaça do Espírito Santo.
[ii] Vida Doméstica, RJ, novembro de 1944, p. 125.

sábado, 30 de setembro de 2017

JOÃO LISBOA

Por Etevaldo Amorim
O fotógrafo, escultor e artista plástico
João Damasceno Lisboa


João Damasceno Lisboa, também conhecido por “Joãozinho de siá Marica” e “Joãozinho Retratista”, nasceu em Pão de Açúcar, Estado de Alagoas, no dia 6 de maio de 1900. Era filho de José Martins Lisboa e Antônia Alves, conforme consta do seu Registro de Casamento feito no Cartório de Pão de Açúcar. Já na Certidão de nascimento do seu filho Heraldo, consta ser a avó paterna Antônia Edina Lisboa. Seu pai, tendo ficado viúvo, casa-se, a 25 de junho de 1904, com Cândida da Conceição Simas, filha de Firmino Pereira Simas e Idalina da Conceição Simas.  Eram seus avós paternos: Aristides Martins Lisboa e Maria da Conceição Santos Silva. Órfão de mãe em tenra idade, foi criado por Maria Eunice da Conceição, conhecida por “siá” Marica.
A 25 de março de 1919, então com 19 anos, casa-se com Nominanda de Campos, filha de Luiz Paulo e Francelina Augusta de Campos, à época com 25 anos. O ato foi realizado na presença do Juiz do Segundo Distrito do Limoeiro, Manoel Vieira Dantas, que substituia o Juiz do Primeiro Distrito, Sr. Guilhermino Pastor da Veiga, tendo por testemunhas os Srs. Álvaro Machado e Octávio Brandão de Oliveira. O casal teve os filhos Heraldo Campos e Evandro.
Siá Marica, mãe adotiva de João Lisboa
Recebeu do artista pão-de-açucarense Segismundo Maciel as primeiras lições da arte de tirar retratos. Desde os tempos em que a fotografia era feita por processos rudimentares, João Lisboa tornou-se o melhor fotógrafo da região..
A pintura também despertou o seu interesse. Na igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, pintou toda a marquise, por ocasião dos festejos comemorativos do Centenário da Paróquia, em 1953.
“Seu Joãozinho” partiu então para voos mais altos. Em Pão de Açúcar, esculpiu os bustos de Bráulio Cavalcante, do Professor Antônio de Freitas Machado e do Presidente Médici, além das miniaturas dos Guerreiros de Bruno Giorgi e da Praça dos Três Poderes, além da estátua do Cristo Redentor do Morro do Cavalete, a sua obra mais relevante. Sua inauguração, que contou com cerca de 6.000 pessoas, se deu no dia 29 de janeiro de 1950. O monumento mede 12,80 m de altura, sendo que a figura tem 10 metros.
Pão de Açúcar em 1946. Foto: João Lisboa.
O Cristo Redentor do Morro do Cavalete, em Pão de Açúcar-AL
Foto: Duan Cícero,
Em Palmeira dos Indios, na Igreja Matriz, outra obra de João Lisboa: as imagens dos 12 Apóstolos. Em Santana do Ipanema, o busto de Adeildo Nepomuceno e o Jumento carregando água em ancoretas, como nos tempos em que a cidade não ara dotada de sistema de abastecimento de água.
João Lisboa esculpindo o busto de
Bráulio Cavalcante, em 1947.




Esculpiu ainda muitas estátuas do Padre Cícero Romão Batista, espalhadas por diversas cidades de Alagoas, bem como a do povoado Meirús, erigida em frente à igreja de Nossa Senhora da Luz, em 2 de outubro de 1971.
            Em 1933, segundo Aldemar de Mendonça em seu “Pão de Açúcar: história e efemérides”, João Lisboa inaugura o Cinema São José, em sociedade com Antônio da Silva Pereira. Entretanto, seu nome aparece como proprietário de um cinema no Almanak Laemmert de 1929.
          Faleceu em Pão de Açúcar a 1:30 h do dia 8 de dezembro de 1990.

sábado, 23 de setembro de 2017

RIO SÃO FRANCISCO: CAMINHOS DE PÃO DE AÇÚCAR

Por Etevaldo Amorim
1. CAMINHO DE PENEDO
O dia mal tinha amanhecido e já era intenso o movimento no porto. As mercadorias estocadas ao longo do cais eram, pouco a pouco, transportadas por vigorosos estivadores para o interior das canoas. De diversos tipos e tamanhos, essas embarcações eram capazes de levar aos confins do Sertão os produtos vindos de longínquas paragens.
Penedo é um entreposto comercial importante, de onde saem as mercadorias vindas do Sertão, em geral matérias primas; e entram os gêneros procedentes de outras partes do Brasil e até do exterior. Vapores como Alexandria, Rio Pardo, Javary; Almirante Jaceguay, Satélite e Iris (do Lloyd Brasileiro), Aracaty (da Companhia Comércio e Navegação), Philadelphia, Jequitinhonha, Marahu, e tantos outros, tocam o porto de Penedo enquanto fazem a navegação de cabotagem.
Navio atracado no porto de Penedo. Década de 1920.
Desde que se regularizou a navegação a vapor no São Francisco, no breve governo do Dr. Thomaz Espíndola, em 1867, o comércio tomara impulso. As feiras-livres de muitas localidades de ambas as margens eram abastecidas com uma grande variedade de produtos: a cerâmica do Carrapicho com suas moringas, quartinhas, alguidares, jarros; juntava-se às esteiras de piripiri, candeeiros de flandres, placas e lampiões, além de gêneros alimentícios típicos da Região, como malcasado, bolo e pé-de-moleque. 
Aproximei-me de alguns passageiros que, como eu, pretendiam embarcar rio acima. Este é o caminho natural para os que demandam a região sertaneja, tendo como extremo o porto de Piranhas, último ponto navegável do São Francisco em seu curso inferior. Daí em diante toma-se o trem da Estrada de Ferro Paulo Afonso até alcançar Jatobá, em Pernambuco.
Enquanto aguardava a colocação da prancha para o embarque, fiquei a observar o rio, divisando Vila Nova na margem oposta. Era uma imensa e impressionante massa de água, separando os Estados de Alagoas e Sergipe. Vendo-o assim pujante e majestoso, achei justificado o entusiasmo contido no depoimento de Maurício de Nassau[i]. Extasiado pela visão do São Francisco, registrou suas impressões com vivo entusiasmo. Segundo ele, o estuário tinha “largura igual à do Mosa antes do porto de Delft e tal correnteza que se não pode dizer”, para depois acrescentar:
“Em outra parte não se encontra um rio tão célebre e tão vantajoso, pois em certos trechos é tal a sua largura que não o atravessa uma bala de canhão de seis libras; é tal a sua velocidade e ímpeto, que as suas águas, impelidas longe da foz até o alto-mar, se conservam doces”.
Começam os preparativos. Movimentadas por potentes moitões, as velas iam sendo içadas até o topo do mastro, balançadas por leve brisa que soprava do mar.
Canoa de tolda com “pano de asa”, que precedeu o traquete, 
introduzido entre o final da década de 1920 e o início da década
 de 1930. Foto: livro Brazilian Cotton, entre março e setembro 
de 1921.
Comparando com a minha primeira estada em Penedo, notei diferença na panaria das canoas de tolda. Em lugar dos rudimentares “panos de asa”, que não eram mais que duas velas latinas juntas num mesmo mastro e postadas diante da tolda, tinham agora dois belos traquetes equipados com sistemas de roldana, que tornavam menos penoso o trabalho dos tripulantes. Com esse novo conjunto de velas seria agora possível aproveitar a força do vento mesmo rio abaixo. Regrando os panos (velas) em ângulo de menor grau possível em relação ao sentido longitudinal da embarcação, o piloto manobrava a canoa em movimento de zig-zag, chegando-se a quase tocar, ora numa margem, ora noutra. E ainda para obter maior vantagem, utilizavam a chamada tábua de bolina, peça triangular cujo vértice era preso à borda superior da canoa e que era submersa até abaixo do fundo da canoa.
Chega a hora de embarcar. Diante de nós estava o Comendador Peixoto, um belo e imponente navio gaiola, que ali chegara em 1920.
A firma penedense Peixoto & Cia (proprietária da Companhia de Navegação Fluvial do Baixo São Francisco) o comprara de uma empresa armadora com sede em Belém (PA), a Mello & Cia. Esta, por sua vez, o recebera, em 1909[ii], de um armador escocês. Construído naquele mesmo ano por Murdoch & Murray, sediada em Port Glasgow, Escócia, foi lançado ao mar a 8 de julho. Próprio para transporte de passageiros e de carga, o navio, de casco de ferro, tinha tonelagem bruta de 192 e, líquida, 144.
Nos rios da Amazônia, ele tinha o nome de Jaminauá. Na sua vinda para cá, partiu de Belém no dia 24 de janeiro de 1920, rebocado pelo vapor Oiapock com destino a Penedo.[iii] Logo recebeu nova denominação, em homenagem ao fundador da Firma, e logo se tornaria o navio mais popular de todo o baixo São Francisco.
Estamos a bordo. Os 32 metros de comprimento por 7,30 m de largura e 1,86 m de profundidade proporcionam boa acomodação e conforto para os passageiros de primeira classe, distribuídos nos seus oito camarotes. Os dois porões tinham capacidade de 170.300 m³.
A Companhia de Navegação possuía outro vapor, o Penedo, popularmente conhecido por “Penedinho”, adquirido em 1925 e que cumpria o contrato em épocas de vazante do rio[iv]. Com regalias de paquete, concedida pelo Aviso Nº 18, de 12 de março de 1926, expedido pelo Ministro da Viação Francisco Sá[v], o pequeno vapor de constituição metálica, foi construído nos estaleiros da firma T. H. Dreeme Holanda, com tonelagem líquida de 110 toneladas, máquina a vapor com propulsão a hélice, e caldeira com pressão de regime de 180 libras.
O vapor Penedo no porto de Pão de Açúcar.

Ainda a propósito da minha última passagem por Penedo, lembro que tive a agradável companhia do Professor Moreno Brandão. O prestigiado historiador e lente do Liceu de Penedo, considerado uma das grandes culturas de Alagoas, era membro de proeminente família do Sertão do Estado. Seu avô, Anacleto de Jesus Maria Brandão, hospedara o Imperador D. Pedro II quando de sua viagem à Cachoeira de Paulo Afonso, em 1859. Seu pai, o Dr. Félix Moreno Brandão, foi um dos médicos mais atuantes no combate ao Cólera, nas devastadoras epidemias que vitimaram fatalmente milhares de sertanejos.
O vapor Sinimbu no porto de Gararu (antiga Curral de Pedras). 
Fonte: site Gararu Fragmentos da História, Pedro Souza.
Naquela ocasião, não estava ali o vapor Sinimbu, invariavelmente escalado para as viagens mediante contrato com o Governo. À nossa disposição estava a lancha Moxotó, a que popularmente chamavam de “Chata”, utilizada normalmente em quadras de vazante do rio. Pelo seu menor calado, navegava mais facilmente no trecho entre Pão de Açúcar e Piranhas, desviando-se das pedras que saltam à superfície do rio, constituindo-se em perigo iminente para pilotos menos experientes.
Segundo Moreno Brandão, em História de Alagoas: a Moxotó era “uma chata, cuja peregrinação através das águas tão fortes e caudalosas é um verdadeiro milagre, tal é a fragilidade da referida embarcação”.
De fato, era mesmo um meio de transporte precário. Movida a vapor, tinha a chaminé à proa e rodas traseiras. Um pavimento superior, tido como primeira classe, era um vão completamente aberto, ocupando dois terços do comprimento total, ao final do qual se instalava o compartimento do comandante.
A Companhia Pernambucana de Navegação tivera recentemente prorrogada a autorização do Governo Federal para o transporte de passageiros e de carga entre Penedo e Piranhas. Pelo Decreto nº 12.218, de 27 de setembro de 1916, assinado pelo Presidente Wenceslau Brás e pelo Ministro de Viação e Obras Públicas, Augusto Tavares de Lyra, a Companhia faria uma viagem redonda por semana, com escalas, tanto na ida como na volta, nas localidades de Propriá (SE), Porto Real do Colégio (AL), São Brás (AL), Porto da Folha (SE, sendo o porto na povoação de ilha do Ouro), Belo Monte (AL), Traipu (AL), Curral de Pedras (SE) e vila de Pão de Açúcar (AL).
Os contratos previam a substituição da Moxotó por outro vapor que melhor se prestasse ao nosso tipo de navegação. Nada foi feito e o resultado foi o terrível acidente de 10 de janeiro de 1917, que vitimou treze pessoas, entre passageiros e tripulantes, constituindo-se no mais trágico acontecimento da história da navegação no curso baixo do São Francisco. Tendo a crer que, mesmo que se passem cem anos, tal fato será lembrado e lamentado pelos ribeirinhos de Alagoas e Sergipe.
 
A chata Moxotó rumo ao Sertão. Foto: Abílio Coutinho.
2.      CAMINHO DE PROPRIÁ
Impulsionado por possantes motores construídos por J. G. Kincaid & Co. Ltd., Greenock, Escócia, de propulsão a hélice, com caldeira cilíndrica alimentada a lenha, gerando um regime de pressão de 130 libras, o navio logo alcança Propriá. A bela cidade sergipana se mostra de longe pelas torres pontiagudas da matriz de Santo Antônio. É que, ao caminho principal para a minha Pão de Açúcar se ligam outros, portas de saída e de chegada em demanda a outros pontos do País. Com máquina a vapor de duplo “compound” de 45/145 HP, caldeira cilíndrica, o navio possuía também um gerador Castle Dínamo nº 7753 – Haddow & Company, Glasgow, Escócia.
Propriá é beneficiada pela Estrada de Ferro Leste Brasileiro. O último trecho, desde Timbó[vi] (Estado da Bahia), foi inaugurado em 1913, tendo a viagem inaugural do trecho Timbó-Propriá ocorrida a 5 de agosto de 1915 (ramal Murta a Capela, no governo de Oliveira Valadão (General Valadão), governador sergipano, natural de Vila Nova, 11.450 m). A inauguração do trecho final – Rosário-Propriá (73.119 metros) aconteceu a 7 de agosto de 1915[vii], com a presença do Secretário de Governo do Estado de Sergipe, Dr. Monteiro de Almeida, representando o Governador. A essa época, o deputado alagoano (de Quebrangulo) Natalício Camboim de Vasconcelos, já apresentava na Câmara Federal um Projeto que defendia a ligação da malha ferroviária de Alagoas a um ponto marginal do rio São Francisco (Porto Real do Colégio), fronteiro a Propriá.[viii]
Defronte a Propriá o vapor baixa âncoras. Algumas canoas, quase todas chatas com suas velas latinas enfunadas pelo vento que já soprava forte, partiram do porto em direção ao navio, que ficara ao largo. Por elas, passageiros e cargas seriam transportadas para a costa e, dali, para outras canoas que as distribuiriam para as localidades mais próximas: Colégio, Telha, Cedro de São João...
Porto de Propriá-SE, 1939. Canoas partem em direção ao 
vapor Comendador Peixoto. Foto: Edgard de Cerqueira Falcão
Entre os passageiros, desembarcaram o Sr. Agostinho Gonçalves, industrial, proprietário da bela canoa Marialva, uma das maiores do desse nosso rio. Entre os tantos que seguiam para o embarque, uma caravana do Touring Club da Bahia, composta de sete senhoras e treze homens, tendo à frente o Dr. Edgard de Cerqueira Falcão[ix].
Passageiros no interior do Comendador Peixoto, vendo-se em primeiro plano a caravana do Touring Club, liderada por Edgard de Cerqueira Falcão. Foto: Edgard de Cerqueira Falcão.
Cumprido esse primeiro porto, e tendo à direita Porto Real do Colégio, segue o Comendador rompendo a correnteza. Adiante São Brás, logo Traipu.
Um dos mais antigos municípios de Alagoas, Traipu é berço de notáveis personalidades: Manoel Gomes Ribeiro, o Barão de Traipu; o jornalista Achilles Balbino de Lelis Mello e, entre tantos outros, o Coronel Serapião Rodrigues de Albuquerque, pai de D. Rosa de Albuquerque, a primeira “Primeira-Dama” de Pão de Açúcar, esposa do Dr. Miguel de Novaes Mello, o primeiro prefeito. À esquerda, a exuberante Serra da Tabanga, temida pelos canoeiros pela ocorrência de ventos fortes e perigosos.
O sol principia a esconder-se no horizonte. Tendo-se à margem sergipana a pequenina povoação de Ilha do Ouro, a prudência manda interromper a viagem e pernoitarmos ali.
Ao amanhecer, um belo cenário se nos apresenta: o Morro dos Prazeres com sua capelinha construída em 1624. Defronte, a Barra do Ipanema. Logo a seguir, Belo Monte, a antiga Lagoa Funda. Ali nasceu o Dr. Miguel Alves Feitosa, que durante a viagem de D. Pedro II, em 1859, hospedou parte da sua comitiva, inclusive o Chefe de Divisão Barroso. Também ele, formado no Rio de Janeiro, foi um dos intrépidos combatentes nos tempos do Cólera.
Canoa de tolda navegando rio abaixo 
utilizando velas do tipo traquete,  equipada
 com “tábua de bolina”.
Foto: Edgard de Cerqueira Falcão.
Cruzamos com uma bela canoa de tolda a bordejar pela margem sergipana, carregada de lenha, a chamada “tonelada”, por certo destinada a alimentar as caldeiras das fábricas de tecido de Propriá, Passagem (Vila Nova, de Peixoto Gonçalves & Cia), Marituba (Piaçabuçu, de Joaquim Gonçalves) e Penedo. Essas indústrias representavam o desenvolvimento do Baixo São Francisco, absorvendo toda a produção de algodão. Por essa época, Pão de Açúcar, que havia perdido o território de Piranhas, emancipado em 1887, tinha uma área de 1.387 km² e população de 25.054 habitantes.[x] A produção anual de algodão em pluma foi de 352 toneladas (1941).
Transpondo o Morro do Morim, encimado pela centenária capelinha de Nossa Senhora do Rosário, eis que surge o Limoeiro, uma Vila pertencente ao município de Pão de Açúcar, cuja origem pode estar associada a sua igreja, marca da formação católica dos seus fundadores, no último quartel do Século XVIII. Feita sob invocação de Jesus, Maria e José, seus festejados padroeiros, a casa de orações teve iniciada a sua construção em 1782, vindo a ser concluída em 1787, cinco anos antes do enforcamento (no Rio de Janeiro) de Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, o “Mártir da Independência”. Conforme Vieira de Carvalho, teria sido construída por João Carlos de Mello, que lhe constituiu um patrimônio de seis vacas e uma légua de terras.
Do Limoeiro podemos vislumbrar a Fazenda Araticum, dos Tavares, com o Sítio São José; mais adiante a Fazenda Belém, da família Brito. Logo a seguir, a Ilha de São Pedro, sede do aldeamento dos índios Xocó, onde tantos missionários franceses e italianos se dedicaram á catequese, destacando-se entre eles Frei Doroteu de Loreto, que, nascido na Suíça e ordenado na Itália, ali chegou muito jovem, em 1849, e permaneceu até sua morte em 1878, em Piaçabuçu.
Prosseguindo pela margem alagoana, passamos a Santa Maria, o Jacarezinho, Santiago, Espinhos, até chegar ao Morro do Farias. Para evitar a forte correnteza e também os bancos de areia fronteiros ao Abaiti, aprazível morada do Dr. Luiz Machado, o vapor procura a costa de Sergipe, deixando para trás o Mocambo, conhecido reduto de população negra, o Jaciobá (propriedade do Dr. Seixas Dória) e, por fim, a Fazenda Niterói, antiga Tapera, do falecido Dr. Constantino Tavares.
Chegamos, enfim, a Pão de Açúcar. Porto raso, composto por longa praia, o navio ficou ao largo. A exemplo do que ocorrera em Propriá, logo vieram as canoas para o embarque e desembarque de passageiros e cargas.
Morro do Cavalete, Pão de Açúcar, 1939. Foto: Edgard de 
Cerqueira Falcão.
Desembarco para ver a cidade. A Oeste o Morro do Cavalete, em cujo cume ergueram um cruzeiro por ocasião da passagem para o Século XX. Mais acima, o Sítio Pau Ferro, antiga propriedade do poeta João Vieira Damasceno Ribeiro. Dali por diante, para além do cemitério, uma estrada para a Ilha do Ferro e sítios da Região de Cima. Atravesso o extenso areal e alcanço a Rua Ferreira de Novaes, cuja denominação reverencia a memória do jovem advogado e deputado provincial falecido no primeiro desastre da Estrada de Ferro Paulo Afonso, em 17 de julho de 1880. Vejo logo ali o sobrado que fora de seu pai, o Major João Machado de Novaes Mello, e que serviu de Casa da Câmara a partir da Emancipação em 3 de março de 1854. Na mesma Rua da Frente, como também a chamam, há o sobrado do Dr. Jovino da Luz, proeminente homem de letras.  Prossigo até chegar diante da Matriz do Sagrado Coração de Jesus, já na Avenida Bráulio Cavalcante, nome dado à antiga Rua do Meio em homenagem ao jovem jurista, trágica e prematuramente falecido em frente ao Palácio do Governo, em Maceió, durante manifestação política em prol das candidaturas do Cel. Clodoaldo da Fonseca e de Fernandes Lima ao Governo do Estado, a 10 de março de 1912.
O Comendador Peixoto no porto de Pão de Açúcar. Acervo: Tonho do Mestre, Pão de Açúcar.

 
3. CAMINHO DO CENTRO.

Além da rota natural, feita pelo rio, outros caminhos se ligam a ela. O Limoeiro, por exemplo, embora não passasse de pequenina povoação, servia de porto para localidades mais afastadas, a que os nativos denominavam “Centro”, em contraposição  àquelas situadas à beira do rio. Era o caso de Jacaré, Guaribas e Retiro. Mercadorias eram transportadas em carros-de-boi. Por ali saiam algodão em rama e também lã, produzida pela fábrica de seu Mário Vieira.
Pão de Açúcar também é, como sempre foi, entreposto comercial para as cidades e povoações do Centro. Tapera, em seu território, Olho D’Água das Flores, Santana do Ipanema, além de outras de menor importância, serviam-se do seu porto.
Valho-me do relato de Dantas Barreto, em viagem iniciada no Recife em 16 de dezembro de 1890.
“Pão de Açúcar, se não conserva a mesma serenidade com que outrora se mostrava entre as suas irmãs do S. Francisco, ainda lhe resta, contudo, alguma vida, que se manifesta pelo seu comércio com o interior de Alagoas e mesmo de Pernambuco.”
Em muito contribuiu para isso a construção da estrada Pão de Açúcar – Santana do Ipanema, passando por Olho D’água das Flores. Em 1929, portanto há dez anos, o então Prefeito Padre José Soares Pinto contribui consideravelmente com o Governo Estadual, tendo à frende o Dr. Álvaro Corrêa Paes, na ampliação da malha viária, abrindo novas estradas, continuando os esforços iniciais dos governadores Fernandes Lima e Costa Rego.
A propósito desse fato, o Diário de Pernambuco, em sua edição de 13 de outubro de 1929, registra:
Dessas estradas de interesse local se salientam pela perfeição de seu acabamento a que se dirige de Pão de Açúcar para Santana do Ipanema e a que vai desta para Palmeira dos Índios.”, para depois concluir: “Os gabos que se fazem a essas rodovias são unânimes e recaem sobre os prefeitos que as fizeram: o Padre Soares Pinto, de Pão de Açúcar; e Graciliano Ramos, de Palmeira dos Índios.”

4.      CAMINHO DE PIRANHAS.

Tem-se, por fim, o último caminho. De Penedo até Piranhas percorre-se 238 km. Daí em diante tem-se o obstáculo das cachoeiras, com 128 km até Jatobá, em Pernambuco, trecho entre as cachoeiras de Paulo Afonso e Itaparica. Contrapondo-se à proposta de Halfeld, que contemplava a construção de um desvio do rio, foi aprovada a ideia do Engenheiro Krauss, que encontrou a solução do contorno por uma linha férrea. Assim foi concebida a Estrada de Ferro Paulo Afonso, por decisão do Ministro Cansanção de Sinimbu.
Desembarco em Piranhas e tomo o trem para a Pedra. De lá me transportarei para o futuro, de onde contemplarei os avanços e retrocessos a tudo quanto foi aqui descrito.
Por hora, despeço-me dos meus companheiros de viagem. Viagem imaginária, de ficção, porém, calcada na mais pura realidade, cujo engenho só nos é permitido pelos caminhos da História.
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Publicado originalmente no jornal Campus/O Dia, edição de 16/09/2017 e no Blog do Sávio Almeida: http://luizsaviodealmeida.blogspot.com.br/2017/09/rio-sao-francisco-caminhos-de-pao-de.html.

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NOTA:
Caro leitor,
Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, contém postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também a necessária citação de autoria e as referências citadas. Isso é correto e justo.
Segue abaixo, como exemplo, a forma correta de referência:
AMORIM, Etevaldo Alves. RIO SÃO FRANCISCO: CAMINHOS DE PÃO DE AÇÚCAR. Maceió, Setembro de 2017. Disponível em: http://www.blogdoetevaldo.blogspot.com.br/. Acesso em: dia, mês e ano.


[i] MELLO, Evaldo Cabral de. NASSAU GOVERNADOR DO BRASIL HOLANDÊS. São Paulo. Companhia das Letras, 2006.
[ii] LOUREIRO, Antônio. As Empresas Armadoras da Amazônia. Blog do Francisco Bomes. Disponível em<http://www.franciscogomesdasilva.com.br/as-empresas-armadoras-da-amazonia/>. Acesso em 22 jul 2017.
[iii] O Estado do Pará, edição de 25 de julho de 1920, p. 7
[iv] Diário de Pernambuco, 14 de novembro de 1925, p. 2.
[v] Gazeta de Notícias (RJ), 13 de março de 1926; Diário Oficial da União, 13/03/1926.
[vi] Atualmente chamada Esplanada.
[vii] O Paíz, RJ, 8 de agosto de 1915. P. 2.
[viii] Jornal do Penedo, 22 de novembro de 1922, p. 3.
[ix] Médico, autor do livro Roteiro de Paulo Afonso. FALCÃO, Edgard de Cerqueira. ROTEIRO DE PAULO AFONSO. São Paulo. Livraria Martins, 1942.
[x] O Observador Econômico e Financeiro, RJ, Ano V, nº 60, janeiro de 1941, p. 66.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia